É tudo verdade?
Atualizado: 2 de jun.
Uma das maiores críticas ao jornalismo tradicional é representado por uma pergunta simples: “quem deu aos jornalistas o direito de filtrar o que eu vou ver/ler/ouvir?”.
Essa “maldade suprema” tem nome: gatekeeping – que pode grosseiramente ser traduzido como “controle de acesso”. Esses seres malvados e manipuladores, os gatekeepers (ou “porteiros”) definiam o que as pessoas teriam acesso, o que seria publicado, televisionado, transmitido para o público. Esses seres diziam o que era ou não importante ou de “interesse público”.

Pois bem: a internet e os algoritmos arrebentaram os grilhões e libertaram a humanidade dessa tirania. Não há mais a ditadura dos jornalistas e qualquer pessoa pode “informar”.
Vivas!!!
Vivas???
Devagar com o andor...
Hoje, vivemos de “cortes” que manipulam os fatos, pessoas que vivem de dar opiniões sobre qualquer assunto como se especialistas fossem (e como se estivessem dando informações ao seu público), bolhas foram criadas para deixar todo mundo feliz com seu viés de confirmação, fazendo parecer que o mundo inteiro concorda com você, pois os comentários são 99,9% favoráveis à sua visão de mundo.
E o jornalismo? Ah, não é mais importante...
O jornalismo lida com algumas coisas com as quais os “especialistas de internet” e os devotos ideológicos não precisam se preocupar: a verdade objetiva dos fatos.
Escândalos como o Master, o INSS ou qualquer outra mazela que nos assola dia sim e outro também, são noticiados dentro do que se chama verdade objetiva dos fatos. Ou seja: o fato é real – e o que muda é o posicionamento diante deles.
Explico: enquanto os devotos e os especialistas de internet podem negar até a morte os escândalos, dizer que “não foi bem assim” ou ficar dizendo que tudo está “fora de contexto”, o jornalismo de verdade vai se ater aos fatos: não existe espaço para mentira. O que muda, então? É o posicionamento diante dos fatos.
Ou seja: os veículos jornalísticos vão analisar os eventos factuais a partir de onde se posicionam – enquanto a turba ensandecida vai ficar gritando, ofendendo e produzindo cortes que vão somente reafirmar seu ponto de vista. Tudo isso sem qualquer compromisso com os fatos, mas apenas com sua visão de mundo.
O papel do gatekeeper e sua necessidade é exatamente o de considerar a verdade objetiva da informação (checagem com fontes, o que separa boatos de realidade, independentemente do posicionamento do veículo diante do fato), seu interesse público (e não o interesse do público) e, principalmente, um profissional e um veículo que respondem pela integridade, pela verdade factual e objetiva do que publica.
Verdade objetiva da informação: “parece que Mariazinha e Joãozinho estão se separando...”.
Interesse público: essa “notícia” se torna mais importante que uma crise internacional e nem precisa de checagem: ela basta por si. Gera cliques, pois é do interesse do público, que dá ao algoritmo a autoridade sobre o que elas vão ler/ver/ouvir. Poxa, nos livramos da tirania dos jornalistas e vivemos um mundo livre dominado por algoritmos bonzinhos que pensam em como nos informar melhor. Xô, jornalismo!!!





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