Todo mundo tem seu preço?
Atualizado: 30 de mai.
Quando virei Diretor de Redação da revista Quatro Rodas, eu tinha apenas 27 anos. Um menino. À época, fui o diretor de redação mais jovem da história da Abril
Esse cargo tornava cada diretor de publicação um preposto da Abril – ou seja: respondia aos processos civis e criminais que porventura fossem movidos contra sua revista. Em tempos ainda de Lei de Imprensa, essa possibilidade nos amedrontava a cada reportagem publicada. Mas havia os processos mais “light”, como os trabalhistas. Bem, “light” não é a melhor escolha de palavras...

Esse cargo tornava cada diretor de publicação um preposto da Abril – ou seja: respondia aos processos civis e criminais que porventura fossem movidos contra sua revista. Em tempos ainda de Lei de Imprensa, essa possibilidade nos amedrontava a cada reportagem publicada. Mas havia os processos mais “light”, como os trabalhistas. Bem, “light” não é a melhor escolha de palavras...
Assim que assumi o cargo, surgiu o primeiro desafio: representar a Abril em um processo trabalhista movido por um grande jornalista e grande sujeito. Em uma gestão anterior à minha, ele havia sido demitido de modo humilhante e covarde: por telegrama. E em seu primeiro dia de férias!
Repito: não por mim, mas por um diretor anterior a mim – nem preciso dizer, evidentemente.
A caminho do fórum para uma audiência, no carro da Abril, o advogado veio com um “bem, deixe-me dizer o que você deve dizer…”.
Nem deixei o colega do Jurídico terminar.
“Desculpe, mas primeiro diga tudo o que ele está pleiteando. E, depois, o que, pela lei e nosso entendimento, é justo nas suas demandas. E, claro, me diga o que não é justo. No que for justo, não contem comigo.”
“Não é assim que funciona”, retrucou o advogado.
“Como o preposto sou eu, é assim que a banda toca na minha revista.”
“Mas a Abril espera que você consiga evitar o máximo de penalização.”
“Se isso significa que eu deva mentir ou humilhar ainda mais um profissional como ele, que tanto fez pela Abril e foi demitido de forma abjeta, acho que colocaram o cara errado na cadeira de diretor.”
E assim foi em todas as causas trabalhistas que tive de encarar como diretor.
Como disse, eu era um garoto de 27 anos. E essa já era minha postura de vida, mesmo antes de me sentar “naquela cadeira”. E não seria diferente com meu traseiro sobre ela.
E tenho orgulho de nunca ter sucumbido a pressões para fazer o contrário.
E assim foi enfrentando ainda questões envolvendo montadoras, anunciantes de peso, questionamentos sobre testes que realizamos. Se estávamos errados, não havia conversa. Se estivéssemos certos, eu virava o Taz.
De tudo isso, tenho uma certeza: a de que a Abril não teria dinheiro suficiente para me pagar para eu fazer algo com o qual não concordasse. Nenhum cargo vale isso. Os cargos passam, acredite.





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